Associação Nacional de Defesa dos Agricultores, Pecuaristas e Produtores da Terra

O Brasil “boi, bala e Bíblia”: novas tendências da política brasileira

O Brasil “boi, bala e Bíblia”: novas tendências da política brasileira

Antonio Pinho

Em matéria publicada recentemente, o famoso site Sputnik Brasil tratou do Brasil “boi, bala e Bíblia”, três palavras que sintetizam os contornos da recente ascensão dos conservadores na política brasileira, há décadas dominada por diferentes vertentes da esquerda – da social-democracia do PSDB ao socialismo do PT. 

O site Sputnik Brasil deu relevante destaque à atuação da Antaterra na defesa do agro brasileiro. Confira abaixo (na sequência retorno com meus comentários):

Boi, bala, Bíblia. Em matéria especial, a Sputnik Brasil traz uma análise explicando por que palavras tão corriqueiras no vocabulário dos brasileiros têm dominado, direta e indiretamente, o nosso cenário político ao longo dos últimos anos, protagonizando as dinâmicas do jogo de interesses no Congresso Nacional a poucos meses das eleições. […]

As eleições de 2014 resultaram em uma composição bastante conservadora no legislativo brasileiro, levando à proliferação de propostas revisionistas na Câmara e no Senado Federal, como para a retirada do símbolo de transgênicos de rótulos, revogação do Estatuto do Desarmamento e criação do Estatuto da Família. Com a queda da presidenta eleita Dilma Rousseff (PT) e a subida ao poder de Michel Temer (MDB), a Bancada BBB ganhou ainda mais força, passando a pressionar o chefe de Estado para ajudar em suas pautas em troca de apoio político a ele.

BOI
Possivelmente a mais organizada, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) atua há décadas (antes, informalmente e com outros nomes) na defesa dos interesses dos ruralistas, com o objetivo de “estimular a ampliação de políticas públicas para o desenvolvimento do agronegócio nacional” e tendo como prioridades atuais “a modernização da legislação trabalhista, fundiária e tributária, além da regulamentação da questão de terras indígenas e áreas quilombolas, a fim de garantir a segurança jurídica necessária à competitividade do setor”, segundo a própria. […]

Uma dessas importantes associações de apoio aos ruralistas, a Associação Nacional de Defesa dos Agricultores, Pecuaristas e Produtores da Terra (Andaterra) vem mantendo uma participação ativa na política brasileira, atuando na questão do salário-educação, no Funrural e no Movimento Abril Verde e Amarelo, que levou mais de 12.000 produtores rurais à Brasília, pedindo pela implementação de uma securitização emergencial no setor.

“No executivo, só no ano de 2017, foram mais de 8 ofícios dirigidos ao ministro da Agricultura, à Casa Civil e à Presidência da República cobrando a redução dos juros de custeio e investimento”, contou à Sputnik Brasil o diretor jurídico Jefferson da Rocha.

Segundo ele, a associação, importante defensora dos ruralistas, acredita que o setor primário é e continuará sendo o grande responsável pelo crescimento econômico brasileiro.

“A prioridade número 1 do governo brasileiro seria parar de regulamentar e burocratizar o setor. Ou seja, se tivéssemos menos Estado e menos carga tributária, teríamos um desenvolvimento ainda maior do setor primário. Em resumo, a grande âncora que segura o desenvolvimento do agro é o Estado, que toma quase 50% em tributos e não oferece o mínimo de infra-estrutura”, reclama Rocha, destacando que, para a Andaterra, por exemplo, também já não há mais espaço no Brasil para “as velhas políticas de ‘distribuição’ de terras patrocinadas pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)” e “a questão indígena também não é mais uma questão fundiária, e, sim, de independência e desenvolvimento dos povos indígenas”. […]

Pode, a princípio, parecer uma forma pejorativa de denominar a direita brasileira. Mas tentemos entender melhor “os três B’s” que estão dando a tônica de uma importante força política. O primeiro B, o boi, é o símbolo da agropecuária, importante motor da economia brasileira. Estima-se que, com o uso de apenas 9% do território nacional, o Brasil alimente mais de 1 bilhão de pessoas. Isso significa que o agro nacional produz alimentos para 5 vezes a população do Brasil. Da porteira para dentro, o agro brasileiro já está no primeiro mundo, seja na produtividade, seja na aplicação das mais avançadas tecnologias. Contudo, para além da porteira, a agropecuária conta com diversos problemas, sendo os principais a logística – estradas, portos, ferrovias e hidrovias – e as constantes ameaças ao direito de propriedade. Neste último quesito, o MST atua livremente invadindo propriedades e espalhando o terror no campo, na total impunidade. Soma-se a questão quilombola e indígena. De norte a sul, as propriedades são invadidas por índios – muitos dos quais falsos índios – e os donos jamais têm suas terras recuperadas, nem recebem indenizações. Laudos antropológicos duvidosos demarcam áreas indígenas e quilombolas em terras há mais de 100 anos ocupadas por fazendas escrituradas. O boi é, portanto, também símbolo da defesa da inviolabilidade da propriedade privada.

O segundo B, a bala, representa outra bandeira muito cara à direita brasileira: o direito ao porte de armas. Apesar do povo ter votado favoravelmente pelo direito ao porte de arma no referendo de 2005, na prática, a Polícia Federal nega a esmagadora maioria dos pedidos de porte. Isso se deve a existência de fatores subjetivos para a concessão do porte. E na falta de exigências objetivas, por motivação ideológica, pensam alguns, a PF fornece portes de arma para um reduzidíssimo público. A “bancada da bala”, como dizem de modo depreciativo, apenas defende que o melhor defensor de sua segurança é o próprio indivíduo. Há total sentido nisso, porque o estado simplesmente não tem condições de “colocar um policial em cada esquina”. Além disso, objetivamente falando, há vários estudos científicos mostrando que quanto mais armada é uma população, menor é o índice de criminalidade. Alguns livros foram publicados no Brasil mostrando esses fatos, um exemplo é a obra Mentiram para mim sobre o desarmamento, de Bene Barbosa e Flávio Quintela.

O terceiro e último B, a Bíblia, tem como reflexo político mais evidente a “bancada evangélica”. Os cristãos, sejam católicos ou evangélicos, são outra força significativa da direita que toma corpo no Brasil. É do cristianismo que a direita brasileira toma seus princípios morais. A relativização total de todos os valores colocou a sociedade num caos e vácuo moral. Nas desordem total, muitos encontram a ordem no cristianismo. E com o crescimento de movimentos pentecostais e neopentecostais, dentro do protestantismo, ou da renovação carismática e dos tradicionalistas, dentro do catolicismo, não tardaria para que sua influência chegasse à política. A tendência é que a influência do cristianismo se amplie na política, fortalecendo o espectro das ideias conservadoras com o componente transcendental.

A agropecuária, a segurança pública e os valores cristãos formam o tripé das ideias conservadoras no Brasil. Na política esse tripé representa a defesa da propriedade privada, da liberdade econômica, da família e da educação tradicional, do direito à defesa pessoal (o porte de arma) e do respeito ao legado do cristianismo.