Associação Nacional de Defesa dos Agricultores, Pecuaristas e Produtores da Terra

Engenheiros Hidrólogos versus Médicos Políticos

Engenheiros Hidrólogos versus Médicos Políticos

Por Victor Gaiardo

Nós, os engenheiros hidrólogos, estamos acostumados a lidar com gráficos parecidos: os hidrogramas (que mostram vazões ao longo do tempo).No estudo de reservatórios destinados a regularizar vazões (para diversos propósitos: geração de energia, irrigação, navegação, abastecimento de água, etc.) ou destinados ao controle de cheias (proteção contra inundações, etc.), sempre existe um hidrograma de entrada (afluente) e um hidrograma de saída (defluente).vírus chinês 3

O primeiro é sempre mais concentrado que o segundo. O primeiro apresenta pico mais pronunciado, é menos achatado e dura menos tempo. Tudo igualzinho a esses gráficos da epidemia. Até a forma analítica (matemática) de ambos é semelhante; descrita aproximadamente pela forma da Distribuição Gama de probabilidades.

Essa lengalenga toda é para concluir o seguinte: os hidrólogos já têm automaticamente na cabeça que os dois gráficos (afluente e defluente) embora diferentes entre si, têm o mesmo volume, ou seja, toda a água que entrar no reservatório terá, mais cedo ou mais tarde, que sair dele.

Em termos ainda mais simples: as áreas contidas sob as duas curvas (afluente e defluente) são rigorosamente iguais.

Vendo os gráficos da epidemia (o agudo e o achatado), o engenheiro, que não é médico, conclui de imediato que, em ambos os casos, o número total de doentes será também rigorosamente o mesmo!

O engenheiro, que é mais esperto que os médicos, conclui facilmente olhando os dois gráficos, que o número final de contaminados será rigorosamente o mesmo, havendo ou não achatamento da curva, ou seja, havendo ou não confinamento social.

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Se o engenheiro for mais esperto ainda, ele descobre também que a área sob os dois gráficos sendo a mesma, o número total de contaminados nas duas situações corresponderá também rigorosamente à população total.

Em outros termos, o engenheiro esperto concluirá que, iniciada uma epidemia, ela só terminará depois que toda a população estiver imunizada (supondo que não haverá reposição). E essa imunização resultará da proteção por vacina (que ainda não está disponível) ou por ter tido a doença (nas formas sintomática ou assintomática, ou seja, perceptível ou não).

O engenheiro esperto concluirá também que até os velhinhos da turma de 69 serão acometidos pela doença, tendo ficado em casa, tendo saído para ir à padaria ou tendo sido recolhidos pelo Caminhão Cata Véio.

Num rasgo final de esperteza, o engenheiro descobrirá que o tal achatamento da curva não teria o objetivo de “salvar vidas” e muito menos de proteger os velhinhos. Poderia ter tido, no máximo, o propósito de fazer com que a demanda hospitalar não ultrapassasse, no momento de pico, a capacidade hospitalar instalada.

Porém, se o objetivo do confinamento for só este, o engenheiro esperto mostrará que é muito mais barato (a economia continuará funcionando) construir emergencialmente hospitais de campanha devidamente equipados com leitos e ventiladores mecânicos para atender esse pico de demanda.

Mas, como o nosso engenheiro é super esperto, ele sabe que quando se aproxima do reservatório uma onda de cheia maior do que ele suporta, o procedimento padrão é abrir preventivamente as comportas e jogar logo para baixo toda a água possível a fim de criar um volume de espera para o hidrograma grandão que se aproxima.

Sabendo disso, esse engenheiro super esperto descobre que o melhor seria começar a ocupar a capacidade hospitalar instalada o mais cedo possível e que seria um absurdo deixar leitos ociosos no hospital no período inicial da epidemia, tal como se verifica hoje no Brasil.

Quanto mais cedo o engenheiro abrir as comportas, maior será a sua capacidade de laminar a cheia afluente, ou seja, quanto mais cedo começarem a ser ocupados todos os leitos hospitalares, maior será a capacidade de atendimento final do reservatório; ou seja, do hospital!

Mas, e se não existir uma demanda muito grande para ocupar a totalidade dos leitos hospitalares logo no período inicial?

Ora, pensa o engenheiro esperto, é só aumentar o contágio, já que toda a população vai ter que ser afetada mesmo, um dia, para que a epidemia se extinga, melhor que o seja logo, para ocupar os leitos ociosos e facilitar a laminação da enchente; ou seja, para facilitar o achatamento da curva epidêmica.

E para fazer isso, melhor mandar à população toda sair logo de casa, começar a trabalhar e conviver. Sem gerar prejuízos astronômicos para a economia.

Bem, depois de tudo isso, nunca é demais lembrar daquela máxima militar: “a guerra é importante demais para deixá-la na mão dos civis”. O engenheiro mega esperto dá um sorriso e pensa: a epidemia é importante demais para deixá-la na mão dos médicos!

A análise é perfeita!

Bilhões de reais estão sendo entregues nas mãos de governantes sem nenhum controle.

Não seria mais prudente, inteligente além de mais racional, gastar esses recursos (talvez menos de 20% deles) em leitos hospitalares fixos ou de campanha, para atendimento aos infectados e deixar a economia funcionar?
Victor Gaiardo é produtor rural, engenheiro e presidente do Sindicato Rural de Jataí/GO

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