Por que contratos de entrega de grãos podem levar 90 dias para serem pagos?

Por  J.C. Bittencourt

Em tempos de “Corona Boatos”, “fakenews” e teoria de conspirações, como uma Trading Company paga o produtor se recebe os valores do comprador após o navio partir carregado do porto?

soja no portoHoje o comércio mundial tem várias modalidades de contrato. A mais comum e mais segura é a Carta de Credito. Nessa modalidade uma Trading Company que opera no Brasil, assina um contrato com o comprador internacional. Ao assinar esse contrato o Comprador deposita os valores no banco de origem (comprador) e esse banco comunica o Banco do Brasil (vendedor) através dos protocolos do sistema internacional financeiro. O código SWIFT instituído pela norma ISO 9362 trata-se de um código gerido pela Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais), cuja sigla é SWIFT. Dessa forma, o comprador e o vendedor estão protegidos pois foram confirmados pelos dois bancos e vinculados a um contrato. Os valores serão liberados quando o capitão do navio assinar o conhecimento de embarque marítimo B/L (Bill of Lading) documento de partida, e confirmar que o produto foi carregado.

Todavia, tem um detalhe importante! Esse processo leva em média 90 dias, entre assinar o contrato de compra e venda, o navio ser agendado e chegar no porto, carregar e partir. Logo, um produtor não aceita receber os valores nesse prazo! O normal são prazos de 10 a 15 dias após o grão estar depositado no porto. Dessa forma as Trading Company precisam buscar no sistema financeiro nacional uma forma de antecipar os recursos para poder capturar o grão. Hoje o BNDES, por exemplo, tem linhas pré-aprovadas para essas empresas. Lembrando que essa operação tem custos de impostos, tarifas e juros pagos pelas Trading. A logística operacional para carregar um navio é bem ampla e envolve desde a reserva de um deposito logístico portuário até a emissão de títulos de CDA (certificado de deposito agropecuário) para comprovar junto aos bancos que o grão está depositado no porto à espera do navio, por exemplo. Dessa forma os valores são liberados para a empresa e a mesma faz o pagamento ao produtor nos prazos contratados.

Mas algo diferente está acontecendo: existem relatos de produtores que as Trading estão mudando os pagamento para um prazo maior, de 90 dias, e existe relatos das empresas que os Bancos estão subindo os juros e limitando o capital de giro pré-aprovado (https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/26/coronavirus-juros-alta-prazo-corte-linha-credito-antecipacao-recebivel.htm). Ou seja, estão deixando as Trading sem a opção de antecipar os valores para pagar o produtor. Dessa forma, as empresas sóconseguirão quitar seu compromisso com o produtor quando o dinheiro do comprador internacional for liberado, na partida do navio, o que acontece num prazo médio de 90 dias. Por essas e outras questões que precisa-se urgentemente de um plano de crise para manter e ajustar o funcionamento básico da nossa economia. É sabido que a crise é grave e vai afetar toda a economia mundial. Contudo, se uma Trading comprovou que o grão está no deposito logístico com a CDA, provou que o dinheiro está no Banco de origem com a SWIFT e provou que tem uma carta de credito assinada, porque aumentar juros ou limitar capital de giro dessas empresas e prejudicar todos, inclusive o produtor brasileiro?

J.C. Bittencourt é administrador

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